CORPO - FUMO



JULIANA MATSUMURA



curadoria COLETIVO TARIMBA









DIANTE DE UM OUROBOROS

Em “Elogio da Sombra”, o autor japonês Junichiro Tanizaki reflete sobre o lugar estético e cultural da sombra na cultura do seu país. Enquanto no Ocidente contemporâneo existe uma busca excessiva pela luz, pela verdade última e definitiva, para os japoneses é a sombra que permite a observação mais verídica da realidade. Tanizaki diz que aquilo que chamamos ‘beleza’ deve sempre crescer a partir das realidades da vida. Seus ancestrais, forçados a viver em quartos escuros, descobriram a beleza nas sombras; descobriram uma forma de guiar sombras em direção àquilo que é belo. Sendo assim, a luz é apenas uma intermediária entre o visível e o invisível. É justamente a sombra, o lugar fronteiriço onde há condições propícias para a experiência de uma verdade que não é absoluta.

A luz sempre esteve associada à verdade. Se hoje é associada ao pensamento científico, para os medievais a luz era, nas palavras de S. Tomás de Aquino “a matéria imaterial, portanto a mais próxima de Deus” (Aquino, De Aeternitate Mundi, 1976). Dicotomicamente, a escuridão é frequentemente associada ao oculto, ao profano, ao desconhecido. É nesse sentido que prevalece a máxima de que a consciência pode retratar algo sem representar algo real de fato: a sombra, a penumbra, é a interseção onde há flexibilidade para acomodar diversas visões de mundos e saberes - enfatizando os ancestrais e os da natureza.

Na prática artística de Juliana Matsumura observamos não a busca pela forma concreta, definitiva, mas sim a vontade de explorar a potencialidade das suas incertezas: a sombra, produto de dois opostos; a desconstrução do círculo, símbolo do todo e da perfeição; a própria busca por uma ancestralidade espiritual. No seu trabalho, Juliana subtilmente cria a possibilidade de que essas incongruências existam, seja pela forma e materiais que usa para trabalhar a luz - os tecidos, a folha de ouro, a escolha dos papéis Thai Bamboo e Thai Mulberry, que propiciam maior retenção de luz, ao invés de refleti-la -, seja pela deformação de formas perfeitas - linhas e círculos -, ou através da criação de um espaço devaneante para representar a transmutação através de símbolos ancestrais e da espiritualidade.

As fronteiras circunscritas e posteriormente expandidas são evidenciadas pela perspectiva formal, mas também em movimento-reflexo da própria criação das obras - seja ao pensar a palpabilidade da criação que ocorre na junção da prensa aos plásticos, desperdícios têxteis, tintas e suportes que vão dos mais fluidos aos mais densos, seja ao elucidar o formato das ideias, da consciência e da consequente busca pela ascensão espiritual baseada na ideia, circular, de um ciclo sem início nem fim identificáveis que, eventualmente, segue para uma expansão à luz de uma metáfora do próprio universo.

Uma “linguagem ao infinito” - como é a literatura para Foucault - é aqui o papel da gravura para Juliana Matsumura (Foucault, Linguagem e Literatura, 2000, pp. 155). Da arte que reflete o processo de exterioridade, que delineia os círculos e as margens aos que vai extrapolar, num processo de ocupação do território de fora, do território do fogo que se contrapõe ao ideário instituído de ser-se apenas o que é visível e que se fecha nos limites do corpo físico.

A passagem do corpo físico para o plano espiritual é representada aqui pelo Butsudan, que pode ser explicado como um pequeno “altar ancestral” ou “altar Budista” em formato de caixa. Presente nas casas japonesas, é usado para rituais familiares que, feitos de forma mais intimista, cultuam a vida e a morte. A memória dos ancestrais é lembrada e honrada pelos vivos, que pedem proteção, saúde e conforto. Em Corpo-Fumo, a obra Interlúdio representa a transmutação humana através do “desconhecido”, da ancestralidade, que se expande em diferentes cosmovisões. Nessa trajetória, a referência aos quatro elementos surge não como matéria-prima, mas sim como uma conexão entre a natureza e a espiritualidade primordial que amplificam a visão do humano em várias culturas.

Ao mesmo tempo escuta-se o ar vibrátil que confere à obra um corpo novo. Este é um som que envolve e desvanece, a “ressonância fundamental,” que escrevia Jean-Luc Nancy em Corpus (Nancy, Corpus, 2006, pp. 121-122). Com atenção redobrada ao tempo dos silêncios não absolutos e das proposições contingentes, ecoam galhos em surdina na cavidade do ouvido de quem escuta.

As sensações e possibilidades de leitura expandem-se ainda nesta exposição com o estímulo da exploração intuitiva e aflorada pelos demais sentidos e dá vazão, construída a partir de uma ambiência que flerta com o onírico, a multitude de conceitos pensados e referidos por Juliana nesta fase que se identifica como a mais madura da sua produção. O suporte é o órgão acumulador da memória, que perdura - num gesto palimpséstico - como sistematizador da incapacidade de esquecimento, dos pensamentos e gestos que ficam no inconsciente e podem voltar a qualquer momento, uma vez que existiram e deixaram ali as suas marcas.

A obra Corpo-fumo, assim como as obras da série Rocha Ígnea, carregam em si as marcas que escorrem como de um esvaziar do inconsciente, em veios esculpidos através do tempo, como a água faz às rochas. É como se, num gesto tarkoviskiano de arar e cultivar a alma através da arte, retratasse a singularidade dos momentos gravados na memória, pois, como refere o cineasta russo no seu livro Esculpir o tempo, esta “singularidade é como a nota dominante de cada momento da existência (...). O artista, portanto, tenta apreender esse princípio e torná-lo concreto, renovando-o a cada vez; a cada nova tentativa, mesmo que em vão, ele tenta obter uma imagem completa da Verdade da existência humana” (Tarkovsky, Esculpir o tempo, 1998, pp. 122).

O espiritual encontra-se com o meio físico. Nesse encontro imagético revela-se a expansão do universo de corpos simples, como aponta Louis-Auguste Blanqui, o “infinito no seu conjunto em cada uma das suas frações” (Blanqui, A eternidade pelos astros, 1872). Este corpo de trabalho, de facto, convida a refletir sobre transmutações inevitáveis, sobre a impermanência da vida, evocando relações entre temas como a natureza, a espiritualidade, a ancestralidade e gestos de eternidade. Questionam-se pontos de passagem entre o material e o espiritual, entre o natural e o artificial. Interrogam-se os acontecimentos no limite entre memória e esquecimento, os enigmas entre a luz e a escuridão, os movimentos entre o início e o fim do universo, da vida e da humanidade.

Estes encontros e reencontros na obra de Juliana Matsumura fazem-se através da acumulação de formas e gestos naturais ao corpo e espírito humano. Vem à memória o poema puro do jovem Arthur Rimbaud em 1872: “De novo me invade. / Quem? - A Eternidade.”

- Coletivo Tarimba




SOBRE A ARTISTA

Juliana Matsumura é uma artista visual nipo-brasileira que vive e trabalha em Lisboa desde 2013. Formada em Desenho na Escola Ar.Co, frequentou também a Graduação em Têxtil e Moda da Universidade de São Paulo. É membro do coletivo de arte Risco Coletivo e faz também parte do grupo de arte contemporânea Now.Here Lisboa. Destacam-se as seguintes exposições nas quais participou: Memórias da Água - Quantos A4 cabem no Áquatro, Barreiro (2020); GRÃO -AiR em Antiga Capitania de Aveiro (2020); Mostra Jovens Criadores 2018 em NOVA SBE, Carcavelos (2019); Evocatório na galeria MUTE, Lisboa (2018); Plataforma de Artes Emergentes #18 na Leyden Gallery, Londres (2018) e Encontros do Olhar na Instituto Tomie Ohtake, São Paulo (2016).

térreo



       


Manto de fogo #1, 2021
madeira, linha de algodão e monotipias sobre compressas
dimensões variáveis








Manto de fogo #2, 2021
madeira, linha de algodão e monotipias sobre compressas
dimensões variáveis                       























1º piso





   
   


Rocha Ígnea #8, 2021
monotipia sobre papel de bambu tailandês
100 x 70 cm


Rocha Ígnea #9, 2021
monotipia sobre papel de bambu tailandês
100 x 70 cm


Rocha Ígnea #10, 2021
monotipia sobre papel de bambu tailandês
100 x 70 cm


Rocha Ígnea #7, 2021
monotipia sobre papel de mulberry tailandês
100 x 70 cm













Janela #2, 2019
impressão fine art em papel de algodão
2 trabalhos de 40 x 30 edição 1/2








Corpo-Fumo, 2019
monotipia sobre papel
60 x 42 cm








Interlúdio, 2019
madeira, tinta acrílica, ramos, objeto em papier maché e folha de ouro
dimensões variáveis


















Multicosmos, 2020
monotipia e colagem sobre papel fabriano rosaspina
9 trabalhos de 60 x 42 cm








Genealogia, 2019
cartão, madeira, folha de ouro, galhos e luzes
dimensões variáveis